Sunday, March 13, 2005

O Livre-Arbítrio

Por que não tenho Livre-Arbítrio
(Artigo onde o autor tenta provar que o ser-humano não tem livre-arbítrio)


O Alvedrio do Livre-Arbítrio

Interessante sim, mas sou obrigado – pelas reações químicas particulares ocorridas em meu cérebro no momento da leitura – a discordar do argumento... sem me revoltar.

Primeiro que o autor, mui simplória e superficialmente, tenta nos convencer de que, sendo o cérebro matéria “extraordinariamente complexa, com muitos componentes, todos interconectados em um padrão confuso e ainda pouco compreendido”, a simples redução de seu funcionamento às óbvias reações químicas que todo garoto na quinta-série já sabe, é suficiente para concluir a falta de vontade própria – como se o cérebro não fizesse parte do todo.

Se lermos com a atenção devida, imunes ao sensacionalismo pseudo-científico que o artigo sugere, podemos dizer que – para usar os mesmo argumentos do autor – quando recebemos um estímulo qualquer e o enviamos ao cérebro (e por quê fazemos isso?), este sinal irá interagir com o cérebro, desencadeando reações químicas e conseqüentemente uma reação psico-motora. O autor afirma não haver livre-arbítrio nisso. Ora, se não são as próprias instruções cerebrais (pensamentos) neste quadro o próprio livre-arbítrio? Se não o são, nada mais haverá, nem mesmo atividade cerebral.

O que o autor confunde – e mais além ele deixa mais explícita a confusão – é livre-arbítrio e consciência. Todos os processos químicos que ele descreve se dão num estado diverso da consciência, e muitos deles são resolvidos/executados também antes de atingirem o estado da consciência. Aí sim, pode-se especular que não há livre-arbítrio. E ainda assim, poderíamos especular se seria possível que mesmo num estado pré-consciente, tais reações químicas fossem subjugadas a uma “memória acumulada”, e as reações que se resolvessem sem o arbítrio da consciência – estado do sistema nervoso central que permite a identificação precisa, o pensamento claro, o comportamento organizado e a percepção ou sentido do que é moralmente certo ou errado – poderiam tomar “caminhos químicos” previamente ou mais comumente percorridos.

Tal argumento toma mais força se pensarmos (se é que somos capazes disso) no estado da consciência como o estado apresentado por um indivíduo de posse de suas faculdades (ver, ouvir, pensar etc.), como conhecimento imediato da sua própria atividade psíquica ou física. Sendo assim, ações inconscientes estariam livres de julgamentos morais e sociais, e não seria possivel rir de uma piada “inconscientemente”, como afirma o autor, pois não haveria parâmetros – sociais, culturais, morais, históricos – para analisarmos a informação recebida, nem percebermos seu sentido hilário, o que já depende de uma disposição do espírito (no sentido filosófico da palavra, do domínio da subjetividade, da consciência e do pensamento): o humor.

Depois o autor também confunde presciência com livre-arbítrio, pensando que o fato de você não rir de uma piada pré-conhecida é ainda uma qualidade puramente relacionada a uma reação química, indeprendente de um prévio conhecimento (pré-consciência, memória) da informação.
Atribuir a faculdade do pensamento a um processo químico é razoável, como tentativa científica de combater o argumento religioso de que Deus deu o livre-arbítrio ao homeme, mas destituir dele toda a carga de aprendizado e de valores do meio-ambiente e da consciência, com suas particularidades e individualidades, para concluir que não temos livre-arbítrio, é no mínimo prematuro, para não dizer infantil.