Tuesday, January 04, 2005

préVIXE

uma homenagem a Arnaldo Xavier
VIXE é um projeto que surgiu na Cabeça Pyndaíbica de Arnaldo Xavier, Souzalopes, Roniwalter Jatobá, Marco Rheys e eu. Discutimos muitas idéias, concordamos e discordamos em muitos pontos, acertamos a diagramação, a editoração, os textos, quem participaria, as capas – ah, a capa era um caso à parte para Arnaldo – mas não conseguimos acertar se a impressão seria com nossos próprios recursos, como manda o figurino pyndahíbico, ou se mandaríamos para uma gráfica, o que acarretaria custos extras.

VIXE é um projeto que Arnaldo não viu terminado, e na verdade ainda não está finalizado. Tantas dificuldades tivemos, ainda mais agora com a minha distância física e a ausência de Arnaldo, parece que os ânimos resfriaram um pouco mais.

Neste novo encontro – préVIXE – pretendemos primeiro homenagear nosso amigo, num brinde à amizade como sempre fizemos, e segundo, inaugurar a retomada dos trabalhos do que foi e ainda será o VIXE, na mesma concepção e contexto que, há quase dois anos atrás, começávamos a discutir e configurar, na mesa de um bar, entre vinhos e amigos...
Saúde Arnaldo!

Eduardo Miranda


  • quem tropeiro de que palavras
  • quem que de palavras tempeiro
  • de quem palavras que eu pé defumo
  • quem de palavras se arma sem arma
  • dura de couro quem vem de nagô
  • quem fala de nunca com olho mais oito
  • palavras de não que eu pé defumo

(souzalopes)



sempre guardou no peito
o repúdio doloroso
da pele e o pêlo
do preconceito imundo
que move o mundo

sempre foi ranzinza
muito ranzinza,
no dia do enterro chovia,
chovia muito.
nenhum de nós
colocou óculos escuros.
(marco rheis)


*
r. oda a dor
i. nevitavelmente
p. ara sempre

* *
neste ano
jazz-me-ei-te
em (26/1)2004 subtons

* * *
a recusa da prosa )
subsenhor sucumbe (
ékatómbe azul:
blue...
profundamente blue
(eduardo miranda)


ORIKI PARA ARNALDO XAVIER
quando você axévier dos emails da memória chegar
vai ser bom que não briguemos
como você brigou muitas vezes
por uma opinião
uma divergência
ou uma antipatia

melhor vai ser, xavier, deixarmos aflorar você daqueles seus versos
de que seu parceiro gereba nos deu notícia:
“o rio são francisco é uma lágrima doce
que desce pelo rosto de minas”

este arnaldo vai nos valer mais a pena agora
entre tantos que você foi

o cangaceiro e sua peixeira verbal
que lhe rendeu reações dos adversários
até pelas vias de fato
era um menino apaixonado por brincar de munganga
e fabricar palavras-bombas

o cangaceiro precisa descansar
de suas brigas contra os fantasmas do amor, das inimizades e da morte

axévier, agora você aprendeu de vez o que já sabia:
o que nos mata e nos torna assassinos cotidianos é nosso medo de amar
nossa economia de afeto
nosso apego às grades e algemas morais da formação deformada
que recebemos ao longo dos anos
o que nos mata e nos torna agentes dos pequenos assassinatos
é o cultivo da mágoa, do rancor, da raiva
o que nos faz suicidas e assassinos nas relações cotidianas
é desprezar a sabedoria do perdão
que não é palavra apenas
dita da boca pra fora
mas aquela onda que vem de dentro
inunda de boa vontade nosso interior
espalhando luz à nossa volta

o cangaceiro xavier já aprendeu para sempre:
é mais que urgente a necessidade de aprendermos amar diferente
de assumirmos a nossa
e a liberdade do outro
pois tudo passa
e o passado precisa ser nosso amigo
para que possamos recebê-lo com prazer
em suas constantes visitas

o arnaldo dos muitos amigos
o arnaldo de algumas mulheres
o arnaldo dos filhos assumidos e não assumidos
o arnaldo dos projetos para descaotizar o trânsito de são paulo
o arnaldo gélèdés
o arnaldo salve o corinthians
o arnaldo phyndaíba
o arnaldo das múltiplas parcerias
o arnaldo que ninguém conhecia
nem sempre disse
mas sabia
que jamais o outro será o que nós queremos que ele seja

por isso a sua “transnegressão”
por isso, perguntava: “por que o horizontal não pode dormir com o vertical?”
e dizia: “cumpad, eu não tenho ódio não”
quando acossado em uma conversa dura no deserto das armas

agora
além de seus textos convidativos para a viagem pelo desafio da linguagem
e da negritude
você é luz de memória
é luz de metáfora
pois que muitas vezes por medo de dizer “eu te amo”
acabamos por murmurar “eu te odeio”
e o que se diz quase sempre não é o que gostaríamos de ter dito
e por causa do interdito
o sentido mora no escuro
do olhar, da pele, do espanto, da dúvida
e só vem à tona quando a ele emprestamos a nossa luz

assim
obesos de mentiras
ou jejuamos
ou teremos que fazer doloridas lipoaspirações
sem contar o incômodo de sustentar por anos a fio
o peso do orgulho, da vaidade, do ciúme, da inveja e do ódio

axévier,
que este luto não seja mais uma luta de nossas contradições de viver
e sim um desprendimento de tudo
uma profunda e pacífica
meditação

é mais que urgente
que aprendamos a amar diferente
antes que seja tarde

quando você, axévier, chegar em nossos emails de memória
haveremos de ter o coração aberto
para recebê-lo com o nosso abraço
e servi-lo uma refrescante água de coco
aquela
da mais profunda sensibilidade da nossa paz
e leveza

que tua passagem e lembrança
nos sejam
um bálsamo
para continuarmos a viagem.

(cuti)


1.

orum o
palíndromo atravessado
na frente dos sem-narinas
o orum não oscila
entre ser algo
ou nada
não queda à mão
mas o pensamento o
pensamenta tanto
e da tal modo
que às vezes até consegue
deter num fotograma
o cine-orum
em termos de
rente afrografia
emprestada ao silêncio
do corpo

2.

negror de transegum
axévier hipérion é
meu hipograma meu
paragrama
cerco
de obsessões acústicas
encosto que se anagramatiza
fora da consecutividade da
cláusula temporal

programa de negro
software rasgacéu
achega de
xangô multilingual

na
quebrada
de xangô xangô
de cara
com o arnaldo

xingou e foi
xingado
(ronald augusto)


Adeus, poeta!

Faleceu, no começo da tarde de 26 de janeiro, o poeta Arnaldo Xavier. Um infarto fulminante o vitimou, novo ainda, aos 57 anos, um dia após acompanhar a passagem dos 450 anos de São Paulo, megacidade que o acolheu no final dos anos 60.
Nascido no bairro de Santo Antônio, em Campina Grande, na Paraíba, Arnaldo publicou livros como a Rosa da Recusa, de 1979, e foi parceiro do compositor baiano Gereba em muitos títulos musicais, como “Forró da Baronesa”, “Nas asas do Velho Chico” e “Arrasta-pé da Fiel”. Seu último trabalho na música foi justamente um frevo em torno do aniversário de São Paulo. Sobrevivia como funcionário da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) da prefeitura de São Paulo.
Conheci Arnaldo Xavier em meados dos anos 70, nos bares paulistanos, em plena ditadura militar. De lá para cá fomos amigos inseparáveis, unidos, sobretudo pela literatura e atuações em defesa da democracia e da igualdade social no país.
Com o também poeta Aristides Klafke e Arnaldo fundamos as Edições Pindaíba, uma editora marginal que editou inúmeros artistas. Uma das últimas publicações foi a antologia Contralamúria, de 1994. Com 382 páginas e reunindo 73 autores, era uma sincera homenagem ao afeto. À festa. À alegria. Era, em suma, uma salada mista e ecumênica para comemorar os vintes anos da editora.
Com a sua morte, ficou, no entanto, um projeto que um dia sonhávamos fazer. Era uma antologia que iria reunir diversos escritores contando como viram São Paulo pela primeira vez. Arnaldo me mostrou suas primeiras anotações:
“Era fim de outubro, 1969. Vista ao longe da rodovia Anhanguera, a cidade estava encoberta por uma neblina reluzente e nervosa, a garoa? As silhuetas compostas pelos prédios configuravam São Paulo, como a boca de um gigante, cujos dentes ameaçavam morder rubras nuvens dispersas ante os primeiros e tímidos raios de um sol de quase dezembro. Lá estava São Paulo, gigante deitado sobre o planalto de Piratininga, molhando os pés enfumaçados ora em Cananéia, ora em Itanhaém, ora em Ilhabela. Diante daquele primeiro olhar, a enorme boca foi pouco a pouco se traduzindo em ruas, avenidas, pontes e viadutos. Ali estava, flácido e sujo, o rio Tietê, expondo as fraturas de seu destino de locomotiva e de promessa de dias melhores”.
Nosso grupo Pindaíba perdeu um poeta – e amigo. Segundo seu conterrâneo, o escritor e jornalista paraibano José Nêumanne Pinto, Arnaldo morreu fazendo aquilo que mais gostava de fazer na vida: escrever. Foi enterrado num lugar onde escolheu em vida: no cemitério da Consolação, onde repousam os restos mortais de um batalhador que ele admirava, o jornalista abolicionista Luiz Gama.

(roniwalter jatobá)

Nasceu na Paraíba
à luz do bexiga
pariu-se o poeta
talvez o último
autêntico, fiel,
Idealista
pela essência,
por seus pensamentos,
pelo espírito...
hoje partiu
abrupto, imprevisível...
como a vida é
a morte imita
deixa o compromisso, o exemplo,
a palavra indecifrável
deixa família, saudades, amigos...
leva um abraço
do eterno, para o eterno
amigo Doriva.
(dorival fontana)

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