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Sunday, February 03, 2019

foi esse o sonho...

Ishtar, with her cult-animal the lion,
and a worshipper Modern impression from a cylinder seal,
c. 2300 BC In the Oriental Institute, University of Chicago
Uma mulher me falava que meu pai e minha mãe tinham sofrido um acidente. Era em Dublin, tenho quase certeza. Eu a interrogava “Onde eles estão?” e ela dispersava, “Ah, estão ali...” “Onde?”, gritava desesperado, “Ali...” e apontava displicentemente para um beco escuro, e alertava: “Mas se eu fosse você eu não iria lá...”.

Claro que eu fui.

Entro no beco e encontro minha mãe caída, desacordada, e meu pai cambaleante, tentando levantá-la. Num instante - num daqueles instantes de sonho que transgridem todas as leis da física - estávamos todos no saguão de um hospital: lembro-me bem de pai, meu irmão e minha esposa. Tem mais gente mas não me lembro quem são, ou não vejo seus rostos. Todos estavam bem calmos, esperando não sei o quê. Eu só queria chegar ao quarto de minha mãe.

Peço informação. Era o quarto número 9, mas disseram que eu não saberia chegar lá... Mostraram-me o mapa do hospital, que parecia o James Connolly, em Blanchardstown, Dublin 15, mas as imediações tinha a representação urbana de Barcelona, em Espanha.

Chamei minha esposa para dar uma olhada no mapa, na esperança de que ela conhecesse o caminho, mas ela estava distraída... Peguei o mapa e disse “Deixa que eu me viro.” Chamei meu irmão para ir comigo. Ele veio, mas no caminho nos perdemos um do outro. Pedi informação para um enfermeiro-estudante - era um hospital universitário. Ele pegou o mapa, olhou, coçou a cabeça, chamou outro colega, “Não é aquele lugar onde não se pode dormir à noite?”, “Sim, lá não se dorme...”. “Tudo bem”, disse, "eu só quero chegar lá!".

O enfermeiro-estudante me conduziu, correndo um pequeno trote, entre portas e corredores. Um verdadeiro labirinto, e conforme nos emaranhávamos hospital adentro, suas alas ganhavam um aspecto de abandono, de desolamento.

Chegamos ao lugar. O enfermeiro sumiu - mais uma daquelas distorções das leis da física. A porta do quarto número 9 ficava numa parede, e parecia uma gaveta. Confuso, abro a tal porta e vejo o corpo de minha mãe. Embora ela estivesse bonita, não aguento a imagem e despenco em prantos. Retoricamente me pergunto "Por que não me avisaram antes?", já que eu tinha a impressão de que todos sabiam, menos eu.

Acordo... e me concentro em entender o sonho. O número 9.

Para quem acredita em numerologia, o 9 encerra um ciclo natural, a morte de um ciclo e as portas para o início de outro. Pode ser interpretado como o fim das ilusões ou como um recomeço.

Eu, que sou e sempre fui cético para estas coisas, acabo dando ouvido mais pela mitologia, como fenômeno popular de transformação e sua capacidade de conectar diferentes culturas através de histórias, geralmente baseadas em tradições e lendas feitas para explicar os fenômenos naturais, a criação do mundo, o universo ou qualquer outra coisa além da simples compreensão.

Nessa linha, tem um mito bem descritivo da essência do número 9: o Mito da Descida de Ishtar ao submundo. Ishtar, deusa suméria da fertilidade, do amor, da guerra e do sexo, desce ao submundo através de uma imensa caverna vertical e conforme avança os sete portões do inferno, um guardião retira uma peça de seu vestuário real. Quando chega ao fundo do poço, Ishtar está totalmente nua, despojada de suas armas e atributos reais, de seus símbolos de status e de realeza. Voltou ao seu estado original. Quando consegue voltar, ela está modificada - pode-se dizer que morreu e renasceu.

Está aí uma boa explicação para o meu número 9...

Wednesday, December 26, 2012

morreu quem?


Dona Canô mesmo, certa vez, questionou o que essa mídia toda queria com ela. Não sou famosa, dizia. Verdade... famosos são dois filhos dela. Ninguém se lembra de Claudionor Viana Teles Velloso, mãe de Clara Maria, Rodrigo, Roberto, Irene ou Mabel, mas todos sofreram tal qual Caetano e Maria B.

Partir no dia de Natal deve ser muito triste para os que ficam... Eu me lembro de minha avó partindo num 22 de Dezembro. Naquele ano, o Natal foi muito triste... e continuou sendo por alguns anos!

Neste que partiu Dona Canô, partiu também Dona Elza, bem menos popular e conhecida. Talvez seja por seus filhos, Eduardo e Alessandro, não serem tão famosos como Caetano e Maria B... mas eles sentem igualzinho.

Wednesday, October 31, 2012

Para Sempre

É... Drummond tinha um jeito de dizer as coisas que ia ainda muito além da "simples" poesia...


Para Sempre
de Carlos Drummond de Andrade
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Tuesday, June 07, 2011

Gráinne Duffy – Out Of The Dark


É uma pena que a grande mídia não se interesse por pequenas pérolas. Gráinne Duffy, uma cantora, compositora e guitarrista irlandêsa que lançou seu primeiro álbum, "Out of the Dark", em novembro de 2008, tem recebido ótimas críticas de uma série de revistas de prestígio, e esta semana chegou aos meus ouvidos através de uma matéria tardia no The Sunday Times.

Numa recusa heróica de entrar para o mainstream das grandes gravadoras, ela declarou "tocar o que bem entender". Por sorte, podemos conferir no Deezer o que isso seja...