Monday, April 13, 2020

O Novo Consumidor

ou Não jogue seu lixo no meu quintal!

Adam Smith, o grande economista e filósofo escocês, conhecido como pai da Economia e do Capitalismo, em seu livro "A Riqueza das Nações", de 1776, escreveu que as necessidades dos produtores deveriam ser consideradas apenas sob a ótica de atender as necessidades dos consumidores (o sublinhado é meu). Uma filosofia consistente com o conceito de marketing, mas em algum momento da história a ganância falou mais alto, e o mantra passou a ser identificar, antecipar e satisfazer as necessidades e desejos dos clientes.

Hoje em dia as organizações fazem de tudo para antecipar necessidades e desejos de consumidores em potencial, na tentativa de satisfazê-los de forma mais eficaz do que os concorrentes. E fazem isso usando uma das técnicas mais agressivas de todos os tempos, uma ferramenta de comunicação de marketing que emprega a distribuição de mensagens patrocinadas com o intuito de promover ou vender um produto... o ANÚNCIO!

Anúncios são uma praga, não importa qual! Pode-se argumentar que alguns anúncios são criativos e tal, quase "uma obra de arte" (sic), mas o problema não é só o conteúdo, ou se o anúncio é criativo ou não, nem mesmo importa qual produto está sendo anunciado... o problema é a privacidade. É o momento. Sem mencionar o custo social - anúncios falsos; anúncios direcionados a crianças; anúncios persivos que querem fazer você pensar que é o que não é, e etc, etc.

Lembro-me dos velhos tempos do telemarketing, quando costumávamos receber ligações aleatórias sobre produtos diferentes, promoções e várias "oportunidades imperdíveis", geralmente na hora do jantar! Lembro-me de meu pai uma vez, depois de dizer 2 ou 3 vezes que não estava interessado, sugeriu "Olha Fulano, por que você não me dá o número do seu telefone que eu ligo pra você quando você estiver jantando! O que acha?", E desligou o telefone!

Basta disso! Basta de panfletos indesejáveis na caixa de correio! Chega de e-mails indesejados, pop-ups indesejados enquanto navega a internet, e o mais chato de todos, os anúncios indesejados que são inseridos no meio dos vídeos do YouTube, e não apenas no início dos vídeo, o que já é chato pra cacete! Anúncios dos aplicativos de rádio da internet, que se declaram antes de iniciar o streaming da estação escoilhida...

Não bastassem os anúncios que temos que engolir nos chamados "intervalos comerciais" - que só ali deviam existir! Anúncios não solicitados são como conselhos indesejados: ninguém os quer, ninguém precisa!!!

Estas campanhas podem estar causando efeito justamente oposto ao que almejam, e em vez de criar empatia com consumidores satisfeitos, vão acabar por gerar repulsa em uma legião de consumidores frustrados, que não têm muitas opções de como sair desse oceano de lixo e poluição visual, sonora e mental.

O que nós, consumidores, podemos fazer?

BANIR!
BOICOTAR!
EMBARGAR!

Não compre nada que lhe meta um anúncio intruso na sua frente!
Abaixo os anúncios indesejados e não solicitados!
O consumidor tem o poder!

Sim, até que poderíamos ...

Tuesday, April 07, 2020

Sonho, logo existo?

uma fábula chinesa


Tem uma fábula chinesa que diz que em uma noite, Zhuang Zhou(*) - Zhuangzi para os íntimos - sonhou que era uma borboleta, a voar alegremente pelos campos, e que quando acordou, questionou se realmente era Zhuangzi que acabara de sonhar ser uma borboleta, ou se era uma borboleta sonhando ser Zhuangzi...

Raul Seixas, letradíssimo no Caminho do Tao, no Buda, em Confúcio, em Krishna, Jesus Cristo, Alex Crowley e o diabo-a-quatro (literalmente), registrou a fábula na canção "O Conto do Sábio Chinês", no LP "Abre-te Sésamo" de 1980. Belíssima!

O argumento do sonho sugere que o ato de sonhar fornece evidências de que nossos sentidos, na qual tanto confiamos para distinguir realidade de ilusão, não são totalmente confiáveis, e qualquer interpretação que dependa dos sentidos, deveria no mínimo ser cuidadosamente examinada antes de concluírmos se é de fato realidade!
-- Como assim? Tudo o que vejo, ouço, sinto e percebo não é real? Ou pode não ser real?

-- Pois é... louco né?
Se fosse hindu esta fábula, provavelmente traria a questão da não-dualidade embutida, e talvez explorasse a possibilidade de Zhuangzi e a borboleta serem um só!

Deixo aqui um haiku/tanka(**) com a minha versão zen-budista/vedântica do dilema:
borboleta não viu Zhuangzi
Zhuangzi não viu borboleta:
nem borboleta, nem Zhuangzi -
          observador
          que a tudo observa.


(*) Zhuang Zhou foi um influente filósofo taoista chinês do século IV a.C. Muitas vezes conhecido como Zhuangzi (/ˈʒwæŋˈziː/; Chinese: 莊子) ("Mestre Zhuang"), viveu por volta do século IV a.C., durante o período dos Reinos Combatentes, um período correspondente ao cume da filosofia chinesa, o período das cem escolas de pensamento.

(**) Haiku (俳句) é uma forma curta de poesia japonesa de 17 sílabas poéticas arranjadas em versos de 5 - 7 - 5 sílabas. O Tanka (短歌) é outra forma curta de poesia japonesa formada por 31 sílabas poéticas arranjada em versos de 5 - 7 - 5 - 7 - 7 sílabas. Além da forma, elas também diferem no tema; tradicionalmente o haiku trata de temas ligados à natureza, enquanto o tanka é mais genérico. Outra curiosidade é que o haiku originou-se do tanka. Nesta minha interpretação da fábula, ofereço as duas formas - o haiku (3 primeiras linhas) e o tanka (2 últimas linhas adicionais).

Sunday, April 05, 2020

Puxando o plugue...


Você se atreveria a dar uma pausa nesta vida caótica e louca em que vivemos? Desligar o celular, o computador, a eletricidade e tudo o mais que seja do "mundo moderno" do qual somos tão dependentes e começar tudo de novo? Em termos totalmente diferentes?

Ouso dizer que praticamente ninguém o faria.

Os acontecimentos recentes estão nos oferecendo uma oportunidade única de reflexão. A realidade é que não puxamos o plugue. Em vez disso, fomos forçados a uma situação que todos queremos ver terminada o mais rápido possível. Como não temos garantia de nada, vamos apenas levando, mas deveríamos ao menos examinar a vida que todos nós tomamos como garantida.

Podemos não dar as costas totalmente para a Internet e outros confortos e mudar para uma casinha de sapê no meio do nada e viver à luz de lampião e fogão a lenha - para nossas mentes viciadas seria impossível viver uma vida sem dinheiro - mas se considerarmos o impacto que estamos tendo no planeta, seria uma grande motivação! Desconectado da modernidade, esfregando gravetos para acender o fogão, vivendo da natureza, caçando e pescando. Um retrato bucólico e reflexivo, livre de discursos doutrinários ou sentimentos de culpa.

Sunday, July 21, 2019

Não me levanto!

Foi em primeiro de Dezembro de 1955 que Rosa Parks disse “não me levanto” para James Blake, o condutor de um ônibus em Montgomery, capital do Alabama, EUA. Naquela época, naquela terra de ninguém, os assentos dianteiros eram reservados a pessoas de pele branca, os do fundo às pessoas de pele escura; nos do meio podiam sentar-se qualquer um, mas se um branco estivesse em pé, tinha preferência sobre o assento.

Perante a surpreendente resposta de Rosa Park, James Blake só pôde dizer “bem, nesse caso terei que levá-la à delegacia”, e Rosa respondeu “pois vamos”!

Em tempos de Bolsonaro, imagino como as Rosas Park andam se virando por aí... Embora o motivo deste post vá além de Bolsonaro.

O Boicote aos Ônibus de Montgomery

O boicote aos ônibus de Montgomery foi um protesto pelos direitos civis durante o qual os afro-americanos se recusaram a andar de ônibus urbanos em Montgomery, no Alabama, para protestar contra os assentos segregados. O boicote ocorreu de 5 de dezembro de 1955, quatro dias após Rosa Parks ter sido presa e multada por se recusar a entregar seu assento de ônibus a um homem branco, até 20 de dezembro de 1956, e foi considerada a primeira manifestação de larga escala dos EUA contra a segregação.

A Suprema Corte americana finalmente ordenou que Montgomery integrasse seu sistema de ônibus, mas muito além dessa vitória, está a mensagem de que o povo tem o poder! Imaginem se os americanos - e apenas os americanos - decidissem não beber Coca-Cola, ou não comer no MacDonalds... por um ano, apenas!

Que mensagem!!!

De volta ao boicote de Montgomery... Um dos líderes, um jovem pastor chamado Martin Luther King Jr., emergiu como um proeminente líder do movimento americano de direitos civis, de 1955 até seu assassinato em 1968.

Mas essa é uma outra história...

Sunday, February 03, 2019

foi esse o sonho...

Ishtar, with her cult-animal the lion,
and a worshipper Modern impression from a cylinder seal,
c. 2300 BC In the Oriental Institute, University of Chicago
Uma mulher me falava que meu pai e minha mãe tinham sofrido um acidente. Era em Dublin, tenho quase certeza. Eu a interrogava “Onde eles estão?” e ela dispersava, “Ah, estão ali...” “Onde?”, gritava desesperado, “Ali...” e apontava displicentemente para um beco escuro, e alertava: “Mas se eu fosse você eu não iria lá...”.

Claro que eu fui.

Entro no beco e encontro minha mãe caída, desacordada, e meu pai cambaleante, tentando levantá-la. Num instante - num daqueles instantes de sonho que transgridem todas as leis da física - estávamos todos no saguão de um hospital: lembro-me bem de pai, meu irmão e minha esposa. Tem mais gente mas não me lembro quem são, ou não vejo seus rostos. Todos estavam bem calmos, esperando não sei o quê. Eu só queria chegar ao quarto de minha mãe.

Peço informação. Era o quarto número 9, mas disseram que eu não saberia chegar lá... Mostraram-me o mapa do hospital, que parecia o James Connolly, em Blanchardstown, Dublin 15, mas as imediações tinha a representação urbana de Barcelona, em Espanha.

Chamei minha esposa para dar uma olhada no mapa, na esperança de que ela conhecesse o caminho, mas ela estava distraída... Peguei o mapa e disse “Deixa que eu me viro.” Chamei meu irmão para ir comigo. Ele veio, mas no caminho nos perdemos um do outro. Pedi informação para um enfermeiro-estudante - era um hospital universitário. Ele pegou o mapa, olhou, coçou a cabeça, chamou outro colega, “Não é aquele lugar onde não se pode dormir à noite?”, “Sim, lá não se dorme...”. “Tudo bem”, disse, "eu só quero chegar lá!".

O enfermeiro-estudante me conduziu, correndo um pequeno trote, entre portas e corredores. Um verdadeiro labirinto, e conforme nos emaranhávamos hospital adentro, suas alas ganhavam um aspecto de abandono, de desolamento.

Chegamos ao lugar. O enfermeiro sumiu - mais uma daquelas distorções das leis da física. A porta do quarto número 9 ficava numa parede, e parecia uma gaveta. Confuso, abro a tal porta e vejo o corpo de minha mãe. Embora ela estivesse bonita, não aguento a imagem e despenco em prantos. Retoricamente me pergunto "Por que não me avisaram antes?", já que eu tinha a impressão de que todos sabiam, menos eu.

Acordo... e me concentro em entender o sonho. O número 9.

Para quem acredita em numerologia, o 9 encerra um ciclo natural, a morte de um ciclo e as portas para o início de outro. Pode ser interpretado como o fim das ilusões ou como um recomeço.

Eu, que sou e sempre fui cético para estas coisas, acabo dando ouvido mais pela mitologia, como fenômeno popular de transformação e sua capacidade de conectar diferentes culturas através de histórias, geralmente baseadas em tradições e lendas feitas para explicar os fenômenos naturais, a criação do mundo, o universo ou qualquer outra coisa além da simples compreensão.

Nessa linha, tem um mito bem descritivo da essência do número 9: o Mito da Descida de Ishtar ao submundo. Ishtar, deusa suméria da fertilidade, do amor, da guerra e do sexo, desce ao submundo através de uma imensa caverna vertical e conforme avança os sete portões do inferno, um guardião retira uma peça de seu vestuário real. Quando chega ao fundo do poço, Ishtar está totalmente nua, despojada de suas armas e atributos reais, de seus símbolos de status e de realeza. Voltou ao seu estado original. Quando consegue voltar, ela está modificada - pode-se dizer que morreu e renasceu.

Está aí uma boa explicação para o meu número 9...