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Tuesday, April 07, 2020

Sonho, logo existo?

uma fábula chinesa


Tem uma fábula chinesa que diz que em uma noite, Zhuang Zhou(*) - Zhuangzi para os íntimos - sonhou que era uma borboleta, a voar alegremente pelos campos, e que quando acordou, questionou se realmente era Zhuangzi que acabara de sonhar ser uma borboleta, ou se era uma borboleta sonhando ser Zhuangzi...

Raul Seixas, letradíssimo no Caminho do Tao, no Buda, em Confúcio, em Krishna, Jesus Cristo, Alex Crowley e o diabo-a-quatro (literalmente), registrou a fábula na canção "O Conto do Sábio Chinês", no LP "Abre-te Sésamo" de 1980. Belíssima!

O argumento do sonho sugere que o ato de sonhar fornece evidências de que nossos sentidos, na qual tanto confiamos para distinguir realidade de ilusão, não são totalmente confiáveis, e qualquer interpretação que dependa dos sentidos, deveria no mínimo ser cuidadosamente examinada antes de concluírmos se é de fato realidade!
-- Como assim? Tudo o que vejo, ouço, sinto e percebo não é real? Ou pode não ser real?

-- Pois é... louco né?
Se fosse hindu esta fábula, provavelmente traria a questão da não-dualidade embutida, e talvez explorasse a possibilidade de Zhuangzi e a borboleta serem um só!

Deixo aqui um haiku/tanka(**) com a minha versão zen-budista/vedântica do dilema:
borboleta não viu Zhuangzi
Zhuangzi não viu borboleta:
nem borboleta, nem Zhuangzi -
          observador
          que a tudo observa.


(*) Zhuang Zhou foi um influente filósofo taoista chinês do século IV a.C. Muitas vezes conhecido como Zhuangzi (/ˈʒwæŋˈziː/; Chinese: 莊子) ("Mestre Zhuang"), viveu por volta do século IV a.C., durante o período dos Reinos Combatentes, um período correspondente ao cume da filosofia chinesa, o período das cem escolas de pensamento.

(**) Haiku (俳句) é uma forma curta de poesia japonesa de 17 sílabas poéticas arranjadas em versos de 5 - 7 - 5 sílabas. O Tanka (短歌) é outra forma curta de poesia japonesa formada por 31 sílabas poéticas arranjada em versos de 5 - 7 - 5 - 7 - 7 sílabas. Além da forma, elas também diferem no tema; tradicionalmente o haiku trata de temas ligados à natureza, enquanto o tanka é mais genérico. Outra curiosidade é que o haiku originou-se do tanka. Nesta minha interpretação da fábula, ofereço as duas formas - o haiku (3 primeiras linhas) e o tanka (2 últimas linhas adicionais).

Wednesday, January 10, 2018

Obediência antecipada

Obedience, by Ann Bakina
As runas são letras características, usadas para escrever nas línguas germânicas da Europa do Norte, principalmente na Escandinávia, ilhas Britânicas e Alemanha (regiões habitadas pelos povos germânicos) do século II. Com o avanço do cristianismo na Europa central a partir do século VI, as runas foram aos poucos sendo substituídas pelo alfabeto latino. As inscrições rúnicas mais antigas datam de cerca do ano de 150.


Aí tem o Heinrich Himmler, que foi um dos homens mais poderosos da Alemanha Nazista, e um dos principais responsáveis pelo Holocausto. Ele tinha um certo fascínio pelo simbolismo rúnico, tanto que as runas aparecem nas insígnias da Schutzstaffel, ou SS, a organização paramilitar liderada por Himmler, representada pelos símbolos rúnicos "ᛋᛋ". Diz a lenda que toda a idealização do extermínio em massa de judeus veio da SS, espontaneamente, sem que tivessem recebido ordens para fazê-lo. Eles acharam que seus superiores queriam algo parecido, e eles demonstraram que era possível!

Essa é a tal da "obediência antecipada"! No primeiro estágio, significa adaptação instintiva, sem reflexão sobre uma situação nova. Mais ou menos o que aconteceu com o povo Alemão em relação às atrocidades contra os Judeus: uns olharam com espanto, outros com curiosidade, mas a maioria aceitou sem questionar!

Dr. Stanley Milgram, um psicólogo social da universidade de Yale, ficou famoso por seu controverso experimento sobre obediência, conduzido nos anos 60, que demonstrou como pessoas comuns e sem traços violentos podiam ser capazes de atos atrozes. Sua maior inspiração era entender como pessoas apareentemente decentes e de bom caráter podiam ter colaborado com os horrores do holocausto. Milgram acreditava que qualquer pessoa, se submetida à pressão da autoridade, tem tendência de simplesmente obedecer. Recentemente assisti ao filme sobre o expimento, Experimenter: 40 voluntários emitindo choques de até 450 volts em desconhecidos, apenas porque foram gentilmente solicitado a faze-lo.

Eugène Ionesco, um dos maiores patafísicos e dramaturgos do teatro do absurdo, presenciou os amigos, aos poucos, se renderem aos absurdos nazistas. No início, diz ele, todos eram veementemente contra, mas aos poucos, mais e mais foram suavizando o discurso: "eu sou contra, mas que, no fundo, eles têm uma certa razão, ha, isso eles têm". Dessa sua experiência, Ionesco deu a luz à sua obra-prima, a peça Rinocerontes, de 1959 (que aliás eu tive o prazer de assistir no teatro TUCA, no final dos anos 90). Lançada também em livro, Rinocerontes é leitura prazerosa, garantida!

Apesar dessa mistura de assuntos, o recado ainda é um só: tenha um sólido sistema moral, siga seus princípios, questione as idéias feitas e as autoridades pela autoridade... Só isso já é um bom começo. Não de ano, mas de vida!

Thursday, June 14, 2012

Um apelo ao tempo ou à humanidade?



Antes fosse só o tempo que nos afligisse. Deixou de ser! Ou melhor, agregaram-se a ele outras inquietudes, outras preocupações, outros afazeres, outras tantas coisas que acontecem enquanto estamos perdendo tempo com alguma coisa... A síndrome do tempo perdido, do acontecimento imediato, da informação disponível... chamem de FOMO, agorafobia, ou pura perda de tempo, a coisa é mais profunda do que parece.

Leia mais no Autopensante.

Tuesday, January 10, 2012

Não que eu ande meio desligado, mas...

... citar mais é de Marx.

Ando meio desligado
Eu nem sinto meus pés no chão
Olho e não vejo nada
Eu só penso se você me quer

Os Mutantes
Miserável não têm pátria. É um despatriado por natureza! Politicamente correto chamá-los despossuídos. Diferentes palavras para descrever a mesma categoria de oprimidos. O que Marx chamou de operário, hoje expande-se para qualquer trabalhador. Excluídos os grandes empresários, pois os pequenos empresários também são presas fáceis no jogo dos poderosos.

E quem são os poderosos? Não os governos! O papel do governo do Estado moderno é apenas o de um comitê para gerir os negócios comuns desse poder! Em 1985, na Alemanha, aconteceu um encontro onde participaram os grandes líderes e os grandes empresários mundiais. Lá eles traçaram o destino do mundo, no qual apenas 20% da população seria necessário... e quando alguém perguntou "E quanto ao resto?" responderam "Do resto cuidem os governos e as ONGs. É para isso que eles servem!" O fim do mundo não deveria ser novidade para ninguém, e nós estamos chegando lá! Vide a cagada que os bancos fizeram e a merda que eles causaram no mundo todo! E os Governos dos Estados Modernos devolve o dinheiro que ps filhosdaputa queimaram e cobram a conta do mais novo-miserável!

Recessão? Crise? Balela, camaradinha; não há tempos difíceis para o capital. Os ricos estão pilhando e chafurdando – eles só querem ter a certeza de que você não vai meter o dedo no bolo deles! Se o miserável do mundo moderno está matando um leão por dia, ou deixando de almoçar para poder jantar com a família em casa, a culpa não é de ninguém mais senão do capital. Quanto menos você comer, beber, comprar livros, ir ao teatro, quanto menos pensar, amar, teorizar, cantar, sofrer, praticar esporte etc, mais economizará e mais crescerá o teu capital. Cocê «SERÁ» menos, mas «TERÁ» mais! E todas as suas paixões serão tragadas pela cobiça... O mesmo capital que fez muitos emergirem para uma vida de luxo e riqueza, fez outros sucumbirem na fossa da miséria, da humilhação - não há milagres: se alguém tem muito é porque muitos têm pouco! E os homens desenvolveram um interesse nú e crú pelo vil metal!

Como disse o sociologo francês Alain Tourraine: "Substitua 'burguesia' por 'globalização' e eis o mundo atual descrito por Marx."

Aí vem o Olavo de Carvalho defender a Ditabranda? Ah...

Wednesday, February 09, 2011

Há Esperança!

Filósofo é o sujeito capaz de responder a perguntas sobre problemas filosóficos, atuais e do passado, de maneira pessoal e original. É isso? Não só isso, eu diria... precisa também pensar espontâneamente, com uma tremenda intenção de ser original, correndo o risco de não ser, na maioria das vezes...

Mas tudo bem, ainda assim estará bem acima da média - a média que não pensa, originalmente ou não, não responde e nem pergunta... apenas assiste, pasmo e passivo, aos acontecimentos que a vida lhes expõem.

Só de organizar suas idéias, combinando diversas fontes, numa ordem lógica para a sua expressão, já é um exercício mental que poucos fazem. Por isso faça! Da sua maneira, que seja... mas faça! Pense, organize, textualize... e se resolver escrever, então, vixe, melhor ainda! Desde que ao escrever respeite as regras gramaticais e de acentuação. Pode não parecer mas elas são importantes!

Só assim haverá esperança...

Thursday, March 11, 2010

um peso, duas medidas


Tem aquele direitão, o Olavo de Carvalho. Inteligente o cara, filósofo, intelectual, mas reacionário...E eu digo reacionário não aquele que é contrário ou hostil à democracia, os antidemocrático - disso ele acusa os esquerdistas - mas aquele que defende princípios ultraconservadores, contrários à evolução política ou social. E é isso o que parece, quando ele usa o mesmo argumento - o singular x o todo - de duas maneiras diferentes, conforme sua conveniência.

Foi assim: num dos seus programas lá na blogtalkrádio (onde eu vou emplacar um programa semanal em breve, me aguarde!), ele acusou a Dilma Rousseff de ser uma assassina! Forte né? Pois é, ele gosta de chocar, e a maneira que ele faz é a da acusação, com muito palavrão, no melhor estilo Luiz Carlos Alborghetti e Luiz Carlos Prates.

Muito bem. Acusou a Dilma de assassina, dizendo que ela pode até não ter matado ninguém pessoalmente, mas o fato de participar de uma instituição que matava pessoas faz dela uma assassina.

Minutos mais tarde, comentando um artigo de Otávio Frias Filho que dizia que a igreja católica assume os erros pelos crimes sexuais cometidos, disse ser um absurdo associar à igreja os crimes dos padres.

Ora, lógica invertida à parte, Olavo de Carvalho alega que os crimes sexuais na igreja são frutos de uma conspiração da esquerda - ele cita um livro, "Good bye good men" que supostamente aponta a crise da vocação e acusa a inserção de uma subcultura homosesxual, principalmente na seleção de novos padres, e nos aconselhamentos psicológicos.

Pois bem seu Carvalho, digo que a igreja é culpada sim! Basta assistir ao documentário "Delivery us from the evil, sobre os crimes do padre irlandês Oliver O'Grady cometidos nos EUA, com depoimentos das vítimas e do próprio Oliver O'Grady. Num certo momento, o "problema" do padre chega aos altos escalões da igreja, e a cúpula, entre eles Bento XVI, o atual papa, ao invés de punir, resolve cuidar do problema "internamente". Padre O'Grady é então transferido para outra comunidade, onde eventualmente comete seus abusos novamente. E isso se repete, sistematicamente, de comunidade em comunidade, acumulando vítimas e mais vítimas... e a igreja fazendo o quê? Acobertando. Ou tem outra palavra para isso?

De quem é a culpa mesmo?

Alegar uma conspiração é a melhor saída. Quando não se entende um fato, arruma-se uma teoria da conspiração. Malucos para seguir, sofisticar e defender a idéia surgirão naturalmente!

Ainda não lí o livro, mas ele já está a caminho...

Friday, December 04, 2009

Eu vou... mas eu volto


Ser Sexta-feira já é em si um evento geralmente bem esperado... sair de férias então, um belo evento sempre muito esperado! Agora, um ano da TUDA... taí um evento surpreendente! Quem diria? Eu não!

Pois é, tudo ao mesmo tempo agora... acabei de lançar a TUDA Dezembro, tô de mala pronta, e é Sexta-feira! Vamos pegar um carvery no The Grasshopper daqui a pouco, termino uns testes no z/OS (lovely, uh?) e é isso... tô de partida!

Pois é camaradinhas, aos amigos, leitores nônimos e leitores anônimos também: tem sido um prazer imenso. E eu te digo... as coisas só tendem a MELHORAR!!!

Fui, mas vou mesmo daqui a pouco!

Monday, November 02, 2009

the big big-brother

Quando tomei conhecimento que o corpo humano era constituído de trilhões de células fiquei fascinado. Estas células são quase como pequenos organismos - eles crescem, se reproduzem, consomem e respondem a estímulos assim como o próprio organismo. É como se o corpo humano fosse uma colônia, e não apenas um indivíduo.

Na verdade, se pensarmos nos primeiros agrupamentos sociais, podemos fazer uma analogia entre os organismos multicelulares - colônias de células - e os indivíduos; não passam de indivíduos que se mantiveram unidos e começaram gradualmente a evoluir também como grupo, e não apenas como indivíduos.

Isso me faz pensar... e se as colônias agissem como indivíduos numa escala maior? Se colonizassemos o universo, poderíamos nos tornar sociedades complexas o suficiente para desenvolvermos uma consciência própria dessa colônia como indivíduo? E poderíamos, como indivíduos, tornarmo-nos conscientes desta consciência (meta-consciência)? Supostamente (até por causa da velocidade da luz) tal consciência individual seria muito mais lenta do que a nossa coletiva, e as gerações vindouras nasceriam e morreriam ignorantes de tal consciência... e o tempo que levaria para um único pensamento atingir o nível superior dessa consciência, seria imensurável... No entanto, já que, ao contrário de nossas células, somos seres inteligentes, poderíamos ler os escritos deixados ao longo da história, por um semelhante... e tal semelhante seria tido como uma espécie de deus, num certo sentido, já que nos transcende em sabedoria e compreensão, mas ao mesmo tempo não seria onipotente, onisciente ou onipresente, e certamente não teria criado o universo...